ORBES - ENTRE REDES E MOINHOS

08:15:00

você não sabe a quantidade de ventanias que engoli,
as centenas de florestas que vomitei pelos canteiros,
que por onde passo sozinho vejo redes e moinhos.

nenhuma lágrima, nenhum ruído, mesmo trincado por dentro
ninguém percebe em mim a augura desse âmbar.
enclausurado dentro de minha imortalidade cruel e imoral 
a coisa mais banal que escapava era o sono,
e era o amor que escorregava, diluindo em si mesmo e em gemidos,
- até o fim.

eram as chuvas orográficas, ciclônicas (talvez eu nunca saiba)
e as tuas mãos, se perderam entre as tuas mãos...
as que me arrastaram silenciosamente pro fundo da mata,
na profundeza que reside a carcaça de barro, 
- resíduo do que é feito o homem. 

certamente o tempo não resistiria e covardemente tardaria a vida
antecipando assim a morte, no riso frouxo que se deu, 
na desgraça comovida de uma doença crônica que olha pra dentro de mim,
e a miséria que se arrasta sem pernas, sem ter pra onde ir...

- você não faz ideia!
da peste e da fome que assolam a pele de um homem faminto,
dos demônios e dos milhares de deuses desumanos 
que enfrentei nesses últimos anos,

onde temperávamos o ódio e a lucidez, misturados com mel e pimenta, 
- saciando a boca, até nos perdermos de vista.
hoje o aroma que salta pela janela representa apenas um rascunho orbital da vida,
o riso que escapou da tua língua e a gargalhada dos meus olhos lacrimejados 
se emolduraram no tempo, - há tempos.

nada é tão sincero assim, e o que sinto são tremores nas mãos e fome,
desejo um prato cheio de esperança e um cálice trasbordando 
tua imagem espontânea, libidinosa e espirituosa, 
saciando-me em prazeres digestivos do amor imaginário, 
bem mais real que esses pilares, vigas, lajes e fundações 
fecundadas no lamaçal de minha alma atônita. 

aqui ninguém assumiria sua própria loucura, 
- os loucos são os outros, e somos nós, minha cara!
e nem mais por um segundo estaremos a sós, 
entre redes e moinhos.

You Might Also Like

0 comentários

Subscribe